A história do homicídio se confunde com a própria história da civilização. Nas sociedades tribais da Antiguidade, matar era um ato privado, um ajuste de contas entre famílias. Durante séculos, tirar uma vida não significou necessariamente cometer um crime. Foi apenas com o surgimento das primeiras cidades-Estado na Mesopotâmia, no Egito e na Grécia que o poder de punir começou a migrar das mãos das famílias para as instituições do Estado.
A partir desse momento, o controle da letalidade tornou-se uma função pública. O homicídio deixou de ser uma questão de honra e passou a ser um atentado contra a ordem social. Entre os romanos, o assassinato premeditado foi classificado como crimen publicum, um crime contra a res publica, contra o próprio corpo político.
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Séculos depois, as teorias de Thomas Hobbes e John Locke consolidaram a ideia de que o Estado moderno detém o monopólio legítimo da violência. Os indivíduos renunciam à vingança pessoal em troca da promessa de segurança coletiva. Matar passa a ser mais do que uma ofensa à vítima: é uma violação do pacto social que sustenta a vida em comunidade.
Para os cristãos, essa proibição está condensada no sétimo mandamento: “Não matarás”. Fora do campo da fé, ela continua a ecoar nas Ciências Sociais. No livro Não matarás: Desenvolvimento, desigualdade e homicídios, o sociólogo Gláucio Soares mostra que a violência letal no Brasil é menos um desvio individual e mais um reflexo das desigualdades estruturais do país. Para Soares, o homicídio é um sintoma social, um espelho das distorções econômicas e culturais que tornam algumas vidas mais expostas à morte do que outras.
Essa leitura ajuda a compreender o que acaba de acontecer no Rio de Janeiro. O episódio que resultou em 121 mortes, segundo estimativas da Polícia Civil, é mais do que uma tragédia local. É o retrato de um Estado que, séculos depois de ter reivindicado para si o direito de punir, ainda falha em garantir o direito de viver. Vejamos o que dizem os dados.
Figura 1: Mortes por agressão no Rio de Janeiro

Somando todos os registros ocorridos entre janeiro de 1996 e dezembro de 2024, foram exatos 168.259 vidas perdidas por agressão no Rio de Janeiro. Isso é mais do que dois Maracanãs totalmente lotados (assumindo uma capacidade máxima de 78.838 torcedores).
Comparativamente, o número de mortes exibe uma forte tendência de queda. Passou de 8.026 casos em 1996 para 3.095 em 2024, o que significa uma redução de aproximadamente 61,5% ao longo de 28 anos. Ou seja, não resta dúvida de que, pelos dados oficiais, a recorrência do óbito violento é menor agora do que já foi em um passado recente. Vejamos a média diária de mortes por agressão no Rio de Janeiro entre 1996 e 2024, conforme ilustra a Figura 2.
Figura 2: Média diária de mortes por agressão no Rio de Janeiro (1996-2024)

Como pode ser observado, a média de mortes por dia passou de cerca de 20,4 (ver linha pontilhada azul) entre 1996 e 2007 para 14,2 entre 2008 e 2018 (ver linha pontilhada verde). Mais recentemente, principalmente a partir de 2019, a média convergiu para aproximadamente dez registros fatais por dia. O Gráfico 3 apresenta um exercício de simulação que ajuda a visualizar como outubro de 2025 destoa do padrão histórico da série de mortes por agressão no Rio de Janeiro.
Figura 3: Média diária de mortes por agressão no Rio de Janeiro (1996-2025)

O primeiro passo foi calcular a média de mortes por agressão por dia para todos os anos. Em 2024, período mais recente com dados disponíveis, essa estimativa foi 8,4, com desvio padrão de 0,8. Simulamos então que 2025 deve repetir essa média de janeiro a setembro (bolinhas azuis). Em outubro, inserimos na planilha o valor real: 121.
O resultado, destacado em vermelho na Figura 3, mostra o tamanho do colapso: um evento totalmente fora da curva em termos estatísticos. Em outubro de 2024, segundo estimativas do Datasus, o Rio de Janeiro registrou 263 óbitos por agressão. Isso equivale a dizer que, em 28 de outubro de 2025, morreram em apenas um dia quase tantas pessoas quanto em cerca de 15 dias do mesmo mês no ano anterior.
Dada a atipicidade do evento, diferentes institutos de pesquisa se mobilizaram para entender como a sociedade interpretou a escalada de violência. Por exemplo, de acordo com o Datafolha, 57% dos moradores do Rio de Janeiro consideram que a operação foi um sucesso. Como esperado, a percepção da taxa de sucesso é mais elevada entre os homens (67%) do que entre as mulheres (47%).
De acordo com a Quaest, que fez uma amostra domiciliar de 1.500 respondentes, a taxa de aprovação foi de 64%. Considerando a clivagem ideológica, somente eleitores de esquerda ou lulistas rejeitam mais do que aprovam a megaoperação. A Tabela 1 reproduz parte das estimativas do levantamento online da AtlasIntel sobre a opinião das pessoas a respeito da operação realizada no Rio de Janeiro.
A tabela mostra como o Rio de Janeiro se destaca, em relação ao restante do país, pelo alto grau de apoio popular às operações policiais, mesmo quando estas envolvem níveis elevados de violência. Enquanto no Brasil 55% da população apoiam esse tipo de ação, no Rio o índice sobe para 62%. Entre moradores de favelas, onde as operações tendem a ser mais frequentes e letais, o apoio é ainda maior: 88%, contra 81% na média nacional.
Outro dado relevante é a percepção sobre o nível de violência empregado nas operações. Para 62% dos fluminenses, o grau de força é considerado adequado, dez pontos acima da média nacional (52%). Mesmo quando se trata de novas operações, o padrão se repete: 62% dos entrevistados no Rio aprovam, em comparação a 56% no Brasil.
Em conjunto, os números indicam que, apesar da letalidade e da recorrência de tragédias, a confiança no uso da força policial permanece mais alta no Rio de Janeiro do que no restante do país. E que a maior parte da população acredita que o uso da força letal é justificável em determinadas circunstâncias, o que revela uma normalização da violência institucional e um alto grau de tolerância social ao emprego da violência pelo Estado. Mas também acende um alerta às autoridades com relação ao domínio territorial a que parcelas consideráveis da população fluminense estão submetidas.
Enfrentar a crise da segurança pública no Brasil requer uma mudança estrutural na lógica de produção, integração e uso das informações pelo Estado. O país ainda opera com bases fragmentadas, registros pouco padronizados e ausência de interoperabilidade entre os sistemas de segurança, justiça e perícia. Sem dados comparáveis, confiáveis e territorializados, não há como planejar políticas públicas de prevenção, avaliar resultados ou coordenar ações entre os entes federativos.
Com o propósito de fomentar esse debate, apresentamos a seguir algumas alternativas possíveis, organizadas em quatro eixos estratégicos:
1. Sistema Nacional Integrado de Informações sobre Segurança Pública: criação de um sistema nacional que padronize e unifique, em tempo real, dados sobre criminalidade, sistema prisional e perícia forense. Essa infraestrutura permitiria acompanhar a dinâmica da violência e identificar padrões que hoje permanecem invisíveis. Por exemplo, é inconcebível que os dados de criminalidade não sejam diretamente comparáveis entre as unidades da federação. Similarmente, a maior parte dos dados de roubo, furto e homicídios carecem de informações geoferenciadas como latitude e longitude das ocorrências. Um esforço importante nesse sentido foi a criação do Sistema Único de Segurança Pública (Susp) em 2018;
2. Pesquisa Nacional de Vitimização: a proposta de uma Pesquisa Nacional de Vitimização por Crimes, nos moldes da National Crime Victimization Survey norte-americana, é central nesse processo. Ela daria ao país uma radiografia mais precisa do medo, da subnotificação e da vitimização cotidiana, elementos que raramente aparecem nas estatísticas oficiais. A informação, quando tratada como política de Estado, deixa de ser mero registro administrativo e se torna ferramenta de inteligência e prevenção. O IBGE, em parceria com universidades e institutos de pesquisa, poderiam ficar responsáveis pelo desenho e coleta das informações em rodadas semestrais/anuais no intuito de gerar uma base de dados longitudinal;
3. Base Nacional de Violência de Gênero: o Brasil exibe elevados índices de violência contra mulheres. Seria importante a criação de uma base de dados nacional com todos os boletins de ocorrência em que as mulheres sejam identificadas como vítimas. A base pode ser ampliada para catalogar crimes contra pessoas trans, permitindo a construção de indicadores consistentes sobre violência de gênero em sentido mais amplo;
4. Integração de Dados Forenses e Locais de Crime: expandir a integração entre dados produzidos em locais de crime, Institutos Médico-Legais e laboratórios forenses, com foco no aprimoramento e na alimentação contínua de sistemas estratégicos como o Sistema Nacional de Análise Balística (SINAB) e o Banco Nacional de Perfis Genéticos. O fortalecimento desses bancos, aliado à integração de informações em um sistema nacional unificado, permitirá reduzir perdas de evidências, qualificar a cadeia de custódia e o fluxo de informações entre polícias civis, órgãos periciais e Ministério Público, e elevar significativamente a capacidade investigativa do Estado. Essa estrutura integrada também favorecerá a produção de estatísticas criminais confiáveis, promoverá maior celeridade na elucidação de crimes e consolidará uma atuação mais transparente e baseada em evidências.
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Mas o avanço não depende apenas de tecnologia ou dados. É necessário também fortalecer os mecanismos de governança, transparência e avaliação. Isso inclui um olhar especial para a qualidade dos presídios e políticas públicas especialmente desenhadas para reduzir a reincidência, promover a reintegração social e garantir condições dignas de cumprimento de pena.
Outro elemento que precisa ser combatido como inimigo é a extrema desigualdade de renda que divide a sociedade brasileira entre descamisados e privilegiados. Enquanto poucos concentram a riqueza e o acesso a oportunidades, milhões permanecem excluídos de direitos básicos como educação, moradia e segurança: terreno fértil para a reprodução da violência.
O caminho para um país mais seguro passa por um Estado que una inteligência e empatia, dados e dignidade, rigor e humanidade. Um Estado que conhece melhor sua realidade, que integra suas bases de dados e que trata a informação como bem público estará mais preparado para proteger vidas, reconstruir a confiança social e garantir o direito fundamental à segurança.
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Todos os dados e scripts computacionais utilizados neste artigo estão publicamente disponíveis em uma plataforma aberta. Assim, qualquer pessoa com um computador pessoal pode reproduzir nossos resultados, reutilizar os dados e códigos de R <https://osf.io/y3tvn>.