As três crises diplomáticas que o governo administra — com Estados Unidos, Argentina e Paraguai — têm relação direta com a disputa eleitoral de outubro.
Em uma declaração na semana passada, ao defender investimentos em defesa, Lula fez referência aos conflitos globais atuais e disse que “a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil, invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, ao mesmo tempo invadiu a Argentina”.
A fala ocasionou uma nota de repúdio do Congresso paraguaio, um telefonema entre o presidente brasileiro e o homólogo Santiago Peña e a convocação do embaixador do Brasil em Assunção para explicações.
O pano de fundo para a frase de Lula, no entanto, está mais relacionado à ofensiva dos Estados Unidos de Donald Trump — a avaliação no Planalto é que o presidente americano recolocou no horizonte a possibilidade de novas sanções com base na Lei Magnitsky e elevou a percepção de risco entre agentes econômicos.
Leia a seguir na análise de Vivian Oswald, Daniel Marcelino e Flávia Maia.
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O PONTO CENTRAL
1. Magnitsky, o (possível) retorno
Donald Trump ampliou a pressão sobre o sistema financeiro para ajudar a campanha de seu aliado no Brasil, Vivian Oswald, Daniel Marcelino e Flávia Maia analisam no JOTA PRO Poder.
- Ao prorrogar por mais um ano a vigência do decreto presidencial publicado em julho de 2025, que previa tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, o presidente americano escancarou suas motivações eleitorais no país.
Por que importa: A medida recolocou no horizonte a possibilidade de novas sanções com base na Lei Magnitsky e elevou a percepção de risco entre agentes econômicos.
- A apreensão aumentou porque Washington passou a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — o que abriu espaço para instrumentos com potencial de afetar instituições financeiras e ampliar a insegurança jurídica.
No Planalto e no Ministério da Fazenda, a leitura é que o alvo final não é apenas o sistema financeiro, mas a confiança na economia brasileira.
- Quanto maior a percepção de risco sobre o país, maior a dificuldade para o governo sustentar a narrativa de estabilidade econômica, um dos principais ativos da campanha de Lula.
- Instituições financeiras nacionais tenderiam a se expor menos ao mercado americano, enquanto instituições estrangeiras evitariam o Brasil.
- A avaliação é que um ambiente de maior incerteza pode elevar a cautela dos mercados e ampliar o desgaste político do governo às vésperas da eleição.
A avaliação predominante no governo é que episódios do tipo reforçam a narrativa de interferência estrangeira, o que pode favorecer Lula.
- “Se olhar o conjunto da obra, sobretudo nas últimas semanas, fica evidente: estão de olho no calendário eleitoral”, disse ao JOTA uma fonte do alto escalão.
🔮 O que observar: A percepção agora é de uma mudança de estratégia.
- Se as primeiras medidas tinham forte componente comercial, a pressão passa a incorporar instrumentos financeiros, diplomáticos e, potencialmente, sanções individuais — em uma escalada considerada compatível com o avanço do calendário eleitoral brasileiro.
- Uma ala do governo acredita que Washington concentrará esforços na eleição brasileira por considerar o pleito de 2026 um dos principais desafios de sua estratégia internacional.
- Na avaliação desse grupo, a “muralha tarifária” contra o Brasil já foi erguida.
- A expectativa é que a pressão avance para uma segunda fase — com iniciativas destinadas a elevar a percepção de risco sobre o país, desgastar instituições brasileiras e aumentar o custo político do governo durante a campanha.
UMA MENSAGEM DA INDÚSTRIA BRASILEIRA (CNI, SESI, SENAI, IEL)
CNI reúne setor privado na São Paulo Climate Week

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) participa da programação da São Paulo Climate Week com uma série de eventos entre os dias 3 e 5 de agosto. A agenda aborda transição justa, mercado de carbono, combustíveis sustentáveis e preparação para a COP31, na Turquia.
Dia 3: A CNI promove um encontro da Sustainable Business COP (SB COP) com lideranças empresariais de diferentes países para fortalecer a contribuição do setor privado às negociações da COP31.
Dia 4: Especialistas discutem os desafios para a implementação do mercado regulado de carbono no Brasil, incluindo as regras do Artigo 6 do Acordo de Paris para transferências internacionais de créditos de carbono (ITMOs).
Dia 5: A CNI realiza mesas-redondas sobre aço de baixo carbono e estratégias para acelerar a produção e o uso de combustíveis sustentáveis.
2. A visão no Judiciário

Nos bastidores do STF e do TSE, a possibilidade de interferência estrangeira nas eleições entrou no radar, Oswald, Marcelino e Maia prosseguem na análise.
- Ministros ouvidos pelo JOTA lembram que esse tipo de atuação é vedado pela Constituição e pela legislação eleitoral — e que, em casos concretos, é possível adotar medidas para mitigar seus efeitos, inclusive por iniciativa do Ministério Público Eleitoral.
🔭 Panorama: O artigo 337 do Código Eleitoral veda que estrangeiros pratiquem atividades partidárias, incluindo a participação em comícios e atos de propaganda, em recintos fechados ou abertos.
- A atuação do presidente da Argentina, Javier Milei, no comício de Flávio Bolsonaro poderia, em tese, se enquadrar nessa proibição.
- Como a situação é atípica, porém, não há jurisprudência consolidada do TSE sobre o tema.
Quanto às sanções impostas com base na Lei Magnitsky, o Supremo já decidiu que leis estrangeiras não produzem efeitos automáticos no Brasil.
- O recuo de Donald Trump em relação a Alexandre de Moraes foi interpretado como sinal de que a Corte enfrentou o tema e deverá manter a mesma posição diante de eventuais novas penalidades.
3. A gosto de Deus

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, mencionou ontem (30) uma retomada das negociações com os Estados Unidos já em agosto, Vivian Oswald registra no JOTA PRO Poder.
- Ele não deixou claro se há data marcada, nem mesmo a intenção do lado de lá de fazê-lo agora.
- “O que nós vamos discutir, a partir do mês de agosto, no momento em que for possível, é a ampliação da lista de exceções, a eventual redução de tarifas, a rediscussão do mérito — uma discussão muito improvável, mas a rediscussão do mérito”, declarou a jornalistas.
Sim, mas… No Planalto, a avaliação é de que os americanos só devem retomar as conversas de fato após o período eleitoral.
4. O cofre da Viúva

Novos dados do Tesouro Nacional mostrando que a dívida pública ultrapassou R$ 9,2 trilhões reforçaram apelos de que o próximo governo — seja qual for — terá que promover um ajuste nas contas públicas.
- O economista Mário Mesquita, ex-diretor do Banco Central e ex-economista-chefe do Itaú Unibanco, afirmou que a situação fiscal deve ser tratada como uma emergência, Fábio Pupo escreve no JOTA PRO Poder.
- Segundo Mesquita, o crescimento contínuo da dívida pública e a persistência de déficits elevados limitam o espaço para uma redução mais intensa dos juros e comprometem o potencial de crescimento do país.
- Ele chamou a atenção para o nível do déficit nominal em 12 meses, em comparação com o PIB — que passou de 8,34% em dezembro para 9,62% em maio.
- “Se isso não é uma emergência, eu não sei o que é”, concluiu.
No mesmo sentido, o vice-presidente sênior de risco soberano da Moody’s, William Foster, afirmou que o próximo governo terá como obstáculo construir consenso no Congresso para viabilizar reformas fiscais.
- A agência vê o Brasil como um dos países que mais precisam fazer ajuste fiscal dentre os analisados, considerando a situação das contas públicas em grande parte como responsável pela inflação e pelos juros em alta.
- A nota de crédito concedida ao Brasil está um nível abaixo do grau de investimento (Ba1) e há alerta para uma possível piora, caso nada seja feito.
- “Se os ajustes fiscais não forem realizados e as taxas de juros permanecerem elevadas, a solidez fiscal do Brasil poderá continuar se deteriorando, aumentando as pressões negativas sobre a atual classificação Ba1 e sua perspectiva estável”, disse Foster. Leia mais.
Aliás… O ministro Dario Durigan já tem dito, em conversas reservadas com agentes do mercado financeiro, que caso Lula seja reeleito pretende alterar o arcabouço fiscal para conter gastos, segundo reportagem do Globo (com paywall).
5. Combustível a mais

O governo estuda prorrogar até o fim do ano a desoneração de PIS e Cofins para a compra de querosene de aviação, Fábio Pupo escreve no JOTA PRO Poder.
- O corte atualmente em vigor foi feito no fim de maio e tem duração até hoje (31).
✈️ Panorama: A análise da prorrogação já foi concluída pelo Ministério de Portos e Aeroportos, que se manifestou de forma favorável à iniciativa, e agora está sob análise da Fazenda.
- A justificativa da pasta setorial são os sucessivos aumentos no preço do combustível, que levaram a um custo adicional estimado em R$ 3,7 bilhões entre abril e junho.
- As informações foram noticiadas pela Folha de S.Paulo e confirmadas pelo JOTA.
- De acordo com o Ministério dos Portos e Aeroportos, o QAV representa a maior parcela individual dos custos das empresas aéreas, respondendo por 29,4% dos custos operacionais em 2025.
- A análise é que o choque de custos reverbera na redução da oferta de serviços e na elevação dos preços das passagens, e que parte desses efeitos já estaria se manifestando em 2026.
6. O cenário no Nordeste

Os três maiores colégios eleitorais do Nordeste seguem entre os principais redutos eleitorais de Lula, apesar das diferentes dinâmicas estaduais, Daniel Marcelino analisa no JOTA PRO Poder.
📊 Panorama: As pesquisas Genial/Quaest divulgadas nesta semana mostram o presidente acima de 50% das intenções de voto na Bahia, em Pernambuco e no Ceará — além de manter ampla vantagem sobre Flávio Bolsonaro nos cenários de segundo turno.
- Os três estados reúnem 25,5 milhões de eleitores, quase 60% de todos os eleitores do Nordeste e 16,2% do total nacional.
- A Bahia concentra 11,3 milhões de eleitores (7,2% do total nacional), Pernambuco reúne 7,2 milhões (4,6%) e o Ceará, 7 milhões (4,4%).
Bahia: Lula lidera o primeiro turno com 52% das intenções de voto, contra 18% de Flávio Bolsonaro, abrindo vantagem de 34 pontos percentuais.
- No segundo turno, o presidente marca 56% contra 23% de Flávio Bolsonaro e também venceria Ronaldo Caiado (57% a 16%), Romeu Zema (57% a 14%) e Renan Santos (57% a 13%).
Pernambuco: Lula registra 55% no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro soma 21%, uma diferença de 34 pontos.
- Na simulação de segundo turno, Lula alcança 58%, contra 24% de Flávio Bolsonaro, e também lidera diante de Caiado (58% a 16%), Zema (60% a 15%) e Santos (59% a 15%).
Ceará: Lula aparece com 55% das intenções de voto, ante 22% de Flávio Bolsonaro, uma vantagem de 33 pontos.
- No segundo turno, o petista chega a 60%, enquanto Flávio Bolsonaro registra 23%.
- Contra os demais adversários testados, o presidente também mantém ampla vantagem: 60% a 19% sobre Caiado, 60% a 17% sobre Zema e 60% a 17% sobre Santos.