“Eu quero mostrar a minha indignação”, disse Augusto Cury, um dos três presidenciáveis que compareceu ontem (23) ao debate da Band, em São Paulo. “Nesse exato momento, Lula da Silva está fazendo uma entrevista num canal de televisão. Isso é um desrespeito com a democracia”, completou o candidato do Avante.
Enquanto isso, na Record, o presidente da República voltava ao discurso definido pela campanha petista, de que não protege filhos nem interfere em investigações — contrapondo sua postura à de Jair Bolsonaro no episódio que levou à saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça, em 2020.
“Eu não sou um presidente que tenta proibir investigação”, disse Lula logo na primeira resposta, questionado sobre os inquéritos contra Lulinha e Marcola, seu ex-chefe de gabinete. “Eu não ameaço mandar ministro embora, eu não ameaço punir delegado. Investigue-se”, continuou.
“E todo mundo tem o direito, sabe, de provar se é inocente. Se isso acontecer, eles serão perdoados. Mas se alguém cometeu erro, e esse erro trouxe prejuízo aos cofres públicos, essas pessoas terão que pagar.” Assista à íntegra no YouTube.
Fato é que as investigações contra o filho de Lula deixaram de ser apenas um problema jurídico para entrarem no centro da campanha presidencial, Fabio MuraKawa, Daniel Marcelino e Marianna Holanda analisam na nota de abertura.
A 11ª rodada da pesquisa BTG/Nexus, divulgada hoje, indica que Flávio Bolsonaro oscilou para cima nos cenários espontâneo e estimulado de primeiro e segundo turnos — reforçando a percepção de uma eleição que vai se apertando cada vez mais, conforme se aproxima das urnas.
- No voto espontâneo, Lula manteve os 38% da rodada anterior, enquanto Flávio Bolsonaro subiu de 29% para 31%.
- No 1º turno estimulado, Lula também permaneceu em 41%, enquanto Flávio oscilou de 36% para 37%.
Também ausente do debate da Band, o candidato do PL parece ter encontrado um caminho na comunicação de sua campanha, Beto Bombig escreve na nota 2. O objetivo é amarrar o campo antipetista do eleitorado com três pilares principais no discurso.
Nesta semana, os presidenciáveis serão entrevistados na bancada do Jornal Nacional, da Globo. Na sexta (28), começa o horário eleitoral gratuito. A campanha eleitoral já está a toda.
Boa leitura e boa semana.
O PONTO CENTRAL
1. ‘Investigue-se’

O caso Lulinha deixou de ser apenas um problema jurídico para entrar no centro da campanha presidencial, Fabio MuraKawa, Daniel Marcelino e Marianna Holanda escrevem no JOTA PRO Poder.
🔭 Panorama: A sucessão de vazamentos da semana passada, somada a movimentos no Supremo e na PGR, deu ao episódio dimensão política própria e obrigou a campanha de Lula a gastar energia com uma crise que preferia manter distante da urna.
- O efeito imediato foi oferecer algum alívio a Flávio Bolsonaro.
- Não elimina o desgaste do candidato do PL, mas muda o equilíbrio do noticiário: em vez de uma campanha acuada por um escândalo, há agora duas candidaturas obrigadas a explicar problemas envolvendo seus círculos familiares.
O clima entre os aliados do senador é de euforia.
- Em todas as suas falas públicas, Flávio tem aproveitado para relacionar Lulinha ao escândalo do INSS — que está entre os motivos para a escolha do vice, Alfredo Gaspar.
- Uma ala do entorno do senador, no entanto, defende que ele mantenha a campanha em outro tom, deixando a responsabilidade pelos ataques para seus aliados.
No entorno de Lula, cresce o incômodo com André Mendonça.
- O ministro é relator de dois dos três inquéritos que envolvem Lulinha e também da investigação sobre “Dark Horse”.
- A queixa, feita nos bastidores, é de uma assimetria de ritmo e exposição.
- As apurações sobre o filho do presidente avançam e produzem novos capítulos, enquanto a investigação que atinge Flávio parece, aos olhos da campanha petista, andar mais devagar.
O ministro do STF negou categoricamente a aliados de Lula ter atuado de qualquer forma nos vazamentos.
- A conversa ocorreu em meio a uma crise entre o magistrado e a PF, com trocas de acusações de parte a parte.
Pesquisas internas já captam incômodo, sobretudo entre eleitores independentes.
- Ainda não há um choque consolidado comparável ao que o “Dark Horse” provocou sobre Flávio, mas o caso atrapalha Lula justamente onde sua campanha mais precisa avançar.
- O eleitor que não é petista nem bolsonarista ainda avalia se o presidente merece mais um mandato.
- O caso também reforça uma percepção de corrupção em torno do governo num momento em que a aprovação vinha encontrando dificuldade para decolar.
🔮 O que observar: A resposta, por enquanto, é tentar produzir outros fatos políticos.
- A reaproximação de Lula com Davi Alcolumbre ajuda a montar essa resposta.
- O governo aposta no avanço de pautas com apelo eleitoral, sobretudo a redução da jornada 6×1 e a medida provisória que suspende a chamada taxa das blusinhas.
- O ato das centrais sindicais previsto para o dia 30, embora não seja um evento oficial de campanha, pode ajudar a recolocar emprego, renda e jornada de trabalho no centro da conversa.
- Passada a fase mais aguda, o plano é deslocar o debate para o programa de governo e para a comparação entre as gestões petistas e a de Jair Bolsonaro.
Lula é menos resiliente ao tema da corrupção.
- O presidente carrega um passivo de desgaste associado ao assunto, especialmente pela memória da Lava Jato, que a oposição tenta reativar entre o eleitorado moderado.
- Flávio, por outro lado, encontra mais facilidade para transformar os episódios envolvendo seu nome em um discurso de superação e declarar vitória.
- As revelações têm potencial de impedir Lula de melhorar sua aprovação, travar sua expansão entre independentes e manter viva, por semanas, uma associação que a campanha preferia deixar no passado.
- Com Lulinha no centro do noticiário, o caminho ficou mais estreito para Lula, e Flávio ganhou tempo para respirar.
UMA MENSAGEM DA INDÚSTRIA BRASILEIRA (CNI, SESI, SENAI, IEL)
CNI pede agilidade em ação sobre piso do frete rodoviário

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) reafirma posição contrária à Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas (PNPM-TRC). Sancionada no começo do mês, a Lei 15.485/2026 – que traz mudanças nas regras – tende a intensificar os efeitos negativos do tabelamento do frete sobre o setor produtivo.
O novo texto reforça um modelo que não reflete a realidade do transporte rodoviário, elevando artificialmente os custos logísticos, reduzindo a competitividade da indústria e comprometendo a livre iniciativa. A CNI alerta que a medida gera insegurança jurídica e impactos econômicos, com custos que podem ser repassados aos preços dos produtos, com potencial reflexo sobre o consumidor final e a inflação.
A entidade defende o julgamento célere da ADI 5.964, que sustenta a inconstitucionalidade do tabelamento do frete. Um dos pontos da lei que prejudicam diretamente a indústria é a redução do prazo máximo de quitação do frete dos habituais 60 a 90 dias para apenas 30 dias úteis. Levantamento recente da CNI mostra que só essa mudança poderá acarretar custo financeiro adicional de até 3,2% no valor do frete, o que representa até R$ 27,7 bilhões anuais para o setor produtivo.
2. Três vetores

Após um período de tropeções e caneladas, Flávio Bolsonaro parece ter encontrado um caminho para sua campanha, Beto Bombig escreve no JOTA.
♟️A estratégia: Com três discursos complementares elaborados pelo marqueteiro Duda Lima — e já disparados nos últimos dias pelo candidato —, a tentativa é amarrar o campo antipetista do eleitorado.
- De um lado, Flávio reafirma ser o único e verdadeiro herdeiro de seu pai, com “nojo” do Supremo e outras agendas “antissistema”.
- Em sentido contrário, tenta convencer a centro-direita conservadora-moderada e hesitante em relação ao bolsonarismo, mas extenuada com o PT, de que é uma espécie de “mal necessário” por ser o único eleitoralmente capaz de derrotar Lula.
- Não por outro motivo, disse que, se eleito, fará um governo de “transição”, ou seja, dentro das regras democráticas.
- Em um terceiro vetor, Flávio se esforça para fazer algo que poucos conseguiram, que é tirar votos de Lula com acusações de desvios éticos e suspeitas de irregularidades — no caso, as investigações em torno de Lulinha e Marcola.
- Quer com isso nivelar por baixo a agenda ética-moral da campanha.
- Jogar pelo empate, digamos assim.
3. Farinha pouca
O governo Lula entrou na reta final de elaboração da proposta de Orçamento de 2027 com pedidos de aumentos bilionários de verbas feitos por diferentes ministérios e órgãos, Fábio Pupo revela no JOTA PRO Poder.
- As demandas vêm de áreas como Defesa, Justiça e até do próprio Planalto.
Por que importa: Os pedidos já superam a economia obtida com o projeto de lei complementar dos combustíveis, aprovado neste mês e que cortou R$ 10 bilhões em gastos obrigatórios no ano que vem. Leia mais.
- Os recursos são demandados mesmo com a atual pressão fiscal sobre o governo e a tentativa da Fazenda de mostrar compromisso com a melhora nas contas públicas.
- Só o Ministério da Defesa tem demandado uma expansão de R$ 12 bilhões sobre os R$ 14 bilhões propostos inicialmente pela equipe econômica.
- Esses valores, que se referem à verba discricionária, seriam adicionais aos números iniciais porque os técnicos da pasta haviam considerado a quantia insuficiente.
Interlocutores ouvidos pelo JOTA dizem que a elevação nos números não é exagerada e tem embasamento, sendo necessária inclusive por causa do aumento da tensão geopolítica.
- A visão expressa internamente é que os outros países estão correndo atrás de investimentos na Defesa e o Brasil está parado.
- A verba iria para atividades como o sistema de defesa antiaérea, o desenvolvimento da inteligência artificial para a Defesa e a execução dos programas de submarinos e dos modelos de avião Gripen.
Também na lista dos que mais pedem recursos está o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
- A pasta quer elevar em R$ 4,4 bilhões os recursos previstos para o ano que vem, principalmente para o Fundo Nacional de Segurança Pública (R$ 1,8 bilhão) e para a Polícia Federal (R$ 1,1 bilhão).
- Nesse caso, estão embutidos valores tanto discricionários como obrigatórios.
- Para a pasta, os recursos seriam necessários para assegurar políticas de segurança e do sistema penitenciário, além de iniciativas de combate ao crime organizado e a crimes ambientais, proteção das fronteiras e ações para a Copa do Mundo Feminina.
O próprio Palácio do Planalto também quer expansão de R$ 1,2 bilhão em recursos em relação ao inicialmente previsto.
- Dentro desse montante, está o pedido da Secom, que busca obter mais R$ 603 milhões para contratos de publicidade, cobertura da agenda presidencial e pesquisas.
- Outros R$ 511 milhões iriam para a Secretaria-Geral da Presidência da República, para atividades como o Orçamento Participativo Federal.
Sim, mas… Movimentos desse tipo por parte dos ministérios e órgãos públicos são comuns a cada formulação orçamentária.
- Isso não significa que os pleitos serão atendidos…
- …mas mostra como o volume demandado pelas diferentes áreas do governo pode ser significativo mesmo em meio a um cenário de pressão sobre o governo para melhorar as contas públicas.
- Em meio à pressão do mercado, os pedidos de diferentes ministérios por mais recursos, inclusive do próprio Planalto, podem reacender dúvidas sobre o real tratamento da situação fiscal pelo governo Lula.
4. O mar tá pra peixe?

O senador Omar Aziz, relator da PEC do fim da escala 6×1, deve apresentar o parecer na semana que vem, mas não garantiu a votação antes da eleição, em entrevista a Marianna Holanda, no JOTA PRO Poder.
- “Devo apresentar relatório no esforço concentrado. Não sei se dá para votar por causa dos trâmites. Tem que ir para o plenário, ser lido, [respeitar o intervalo regimental de] cinco sessões, como se trata de PEC”, disse, completando que será favorável à medida.
- Questionado se é possível votar a proposta antes do primeiro turno, afirmou que “tudo é possível no Congresso”.
- “Meu relatório é favorável. Pessoalmente, não pretendo modificar, mas tenho que ouvir os pares. Não tem como achar que é dono de um relatório e ninguém tem como dar opinião. Sou só relator”, completou.
5. Pecado mais caro

A proposta de alíquotas do Imposto Seletivo deve ser encaminhada ao Congresso na primeira quinzena de setembro, Bárbara Mengardo escreve no JOTA.
- O tema deve ser resolvido via medida provisória e não deve ir ao Legislativo antes do PLOA (Projeto de Lei Orçamentária Anual), cujo prazo é 31 de agosto.
- A MP deve contemplar as alíquotas do IS para 2027, período no qual deve ser mantida a carga do IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados).
- O percentual aplicado a partir de 2028 deve ser definido posteriormente.
A manutenção da carga atual é um dos argumentos utilizados pela Fazenda para quebrar eventuais barreiras no Congresso.
- A pasta tem destacado que trata-se de uma medida de manutenção tributária.
- O envio em setembro via MP dá um grau de segurança maior de que as alíquotas do Imposto Seletivo estarão vigentes em 1º de janeiro de 2027.
- O tributo está sujeito tanto à noventena como à anterioridade anual — o que significa que, caso encaminhada por projeto de lei, a proposta precisa ser aprovada até 3 de outubro deste ano, um dia antes do 1º turno das eleições.
AGENDA BSB
6. Taxa das blusinhas e mais
- Lula, Hugo Motta e Davi Alcolumbre se reunirão na quarta (26) para tratar da MP 1.357/26, da taxa das blusinhas. O governo demorou para entrar na articulação e garantir que o texto fosse aprovado antes de caducar, como o JOTA mostrou, e a pressão do varejo se intensificou.Há dificuldade de se encontrar nome no Senado para relatar o texto na comissão mista, que já foi criada. Além do apertado calendário eleitoral, o setor vai pressionar quem estiver na posição. Por isso, quem é candidato tende a se afastar da relatoria.
A expectativa no governo é de instalação do colegiado em 1º de setembro. Para que a medida não caduque e a taxa seja retomada em pleno período eleitoral, é necessário que a MP seja aprovada e convertida em lei até 8 de setembro. Os parlamentares, no entanto, só estarão em Brasília na semana de 31 de agosto a 4 de setembro.
- O plenário do Supremo Tribunal Federal deve retomar na quinta-feira (27) o julgamento sobre uberização — que discute o vínculo de trabalho entre motoristas e entregadores com plataformas digitais. Serão julgados tanto um recurso da Uber, de relatoria de Edson Fachin, como uma reclamação da Rappi, de Alexandre de Moraes. Os casos são os únicos da pauta, mas os ministros podem decidir por começar a sessão com remanescentes de quarta.Nos bastidores do STF, existe uma discussão sobre uma construção intermediária para a questão das plataformas, porém, os termos ainda estão sendo desenhados. Pelos debates e decisões já proferidas em outros processos, a maioria dos ministros deve afastar o vínculo empregatício, contudo, deve vir uma tese garantindo proteções mínimas, como, limite de jornada e contribuição previdenciária.
- O Supremo julga até sexta (28), no plenário virtual, a possibilidade de tributação, no Brasil, do lucro de controladas e coligadas no exterior. O placar é de 5 votos a 2 a favor da incidência de IRPJ e CSLL. O relator, André Mendonça, proferiu voto que afasta a tributação, sendo acompanhado pelo ministro Luiz Fux. A corrente da divergência, impondo a tributação, é puxada pelo ministro Gilmar Mendes, que foi acompanhado por Alexandre de Moraes, Nunes Marques e Cristiano Zanin. Dias Toffoli também diverge.Embora não tramite na sistemática de repercussão geral, o tema é acompanhado de perto pelo governo devido ao relevante precedente a ser formado a partir do julgamento.
- O governo divulga na quarta (26) o relatório mensal com dados da dívida do Tesouro Nacional. Os números são divulgados em meio à pressão fiscal sofrida pela gestão petista durante a campanha eleitoral. Na última divulgação, referente aos dados de junho, o estoque da Dívida Pública Federal (DPF) apresentou aumento, em termos nominais, de 2,61%, para R$ 9,2 trilhões. O Tesouro tem tido episódios de dificuldade para a rolagem de dívida diante da preocupação do mercado com o estado das contas públicas.