Garcia Pereira Advogados Associados

Nas últimas semanas, o presidente Bolsonaro tem voltado a citar a inflação como um problema que piorou muito durante a pandemia. Outros países também têm enfrentado o mesmo problema. No entanto, Bolsonaro argumenta que a crise inflacionária no Brasil tem sido pior por causa das políticas adotadas pelos estados e municípios brasileiros. De acordo com ele, estes promoveram medidas como o fechamento do comércio e limites às aglomerações privadas e públicas visando conter a disseminação do vírus SARS-CoV-2 que contribuíram para aumentar as pressões inflacionários em 2021.

A preocupação do presidente é compartilhada mundialmente neste momento devido à elevação de preços desde o início da pandemia. Nos primeiros meses de 2020, as restrições de mobilidade e regras de distanciamento social decretadas por muitos governos mudaram drasticamente os padrões de gastos dos consumidores. Porém, mesmo com a recuperação das economias após o choque inicial da pandemia, as pressões inflacionárias têm persistido em muitos países. Por esse motivo, muitos economistas e governantes citam o aumento dos preços como um desafio mundial e como consequência de uma economia global em recuperação. Nesse sentido, a pandemia pode ser vista como um choque exógeno que atingiu os mercados globais produzindo pressões extraordinárias também nas economias desenvolvidas.

No caso norte-americano, por exemplo, o aumento nos preços ao consumidor em dezembro de 2021 (7,04%) se aproximava de seu ponto mais elevado nas últimas quatro décadas (7,62%) em fevereiro de 1982. No Reino Unido, a inflação subiu a 5,5%, o maior aumento em 30 anos. Há motivos ainda para pensar que estas estimativas são inferiores ao observado na realidade. Por causa da pandemia, muitas famílias passaram a priorizar compras de alimentos e a reduzir despesas em transporte e lazer. Tais mudanças significativas nos padrões de gastos podem não se refletir nos Índices de Preços ao Consumidor (IPCs) usados para medir a inflação. Usando dados disponíveis sobre transações com cartões de crédito e débito, o professor e pesquisador Alberto Cavallo atualizou os pesos oficiais do IPC e recalculou a inflação tendo como base as cestas de consumo da Covid-19 para 20 países durante a pandemia[1].

No caso norte-americano, ele estima que a inflação anual da Covid-19 foi de 0,95% em comparação com apenas 0,13% no IPC no período entre março e setembro de 2020, o período onde houve a maior queda na mobilidade das pessoas e no consumo das famílias. Cavallo ainda mostra que a inflação da Covid-19 foi maior para famílias de baixa renda que tradicionalmente gastam relativamente mais em alimentos e menos em transporte. As diferenças entre os quintis inferior e superior da distribuição de renda foram maiores no início da pandemia, mas ainda perduram ao longo de vários meses de 2020, no caso norte-americano.

E no caso do Brasil? Somos vítimas desse mesmo fenômeno global ou há algo de excepcional na inflação brasileira? Usando os dados de Cavallo, comparamos a inflação brasileira na cesta Covid em comparação com os outros 20 países que compõem o estudo. Para essa comparação, pressupomos que a pandemia causou uma mudança semelhante nos padrões de consumo conforme visto no caso norte-americano. Os dados revelavam que a divergência nessas duas taxas de inflação setoriais foi maior e mais persistente, no período de março a setembro de 2020, em 11 países analisados no estudo. Desses 11 países, foi no caso brasileiro onde se observou a maior diferença entre o custo da cesta básica como tradicionalmente mensurada e a ponderada pela mudança no consumo durante a pandemia. Cavallo não calcula os resultados por faixa de renda para o Brasil, mas podemos imaginar que o prejuízo para as famílias com maior vulnerabilidade econômica foi ainda maior dado que as mesmas gastam uma proporção substantiva de seus ingressos em alimentação.

Nessa comparação, a maioria dos países são economias desenvolvidas, mas há também economias em desenvolvimento (por exemplo, Argentina, Chile e Colômbia na América Latina). Desses quatro países latino-americanos, o Brasil teve o pior desempenho durante 2020. Ou seja, mesmo que o choque tenha tido um impacto em todas essas economias, houve países em que a resposta foi pior e o Brasil se destaca entre eles. Nesses casos, o prejuízo para os consumidores foi ainda mais agudo dado que, com os mesmos recursos, o poder de compra caiu consideravelmente. Isso se deve não somente à crise gerada pela pandemia, mas sim ao fato do brasileiro conviver persistentemente com elevadas taxas de inflação, um imposto regressivo que prejudica as famílias de renda baixa e média em maior proporção do que as de renda alta. Durante o governo Bolsonaro, os esforços para reduzir a inflação não foram bem sucedidos. O país já se encontrava convivendo com inflação e isso só piorou com a crise gerada pela pandemia.

Em 2021, o Brasil viveu taxas maiores de infecção, hospitalização e perda de vidas em comparação com o primeiro ano da pandemia mesmo com o início das campanhas de vacinação já em janeiro de 2021. Nesse ano, com a piora da pandemia, a maioria dos estados e dos municípios optou por uma flexibilização das medidas mais duras voltadas ao controle de aglomerações e operações de comércio. Este fato contradiz os argumentos do presidente Bolsonaro que enfatiza lógica oposta ao afirmar que “em 2021, em função da política do fique em casa e a economia a gente vê depois, veio a inflação. Em especial da energia, combustíveis e gêneros alimentícios”[2]. Nossos estudos de monitoramento do nível de rigidez das políticas de distanciamento confirmam que houve uma diminuição considerável nas tais medidas comumente denominadas como de “fique em casa” nos estados da Federação brasileira[3]. Ou seja, a inflação aumentou ao sairmos de casa de forma desprotegida e pela ausência de políticas eficazes de controle da pandemia. Além disto, as famílias brasileiras mais vulneráveis receberam auxílio emergencial de menor valor em termos monetários e desvalorizado por causa da inflação em 2021.

Como mostram os dados da Figura 1 (Painel A), o IPCA se manteve com aumentos mensais expressivos (média de 0,81% entre janeiro e novembro de 2021) e com uma volatilidade maior (desvio padrão de 0,32% entre janeiro e novembro de 2021). Ao mesmo tempo, os consumidores alteraram suas expectativas. A partir de abril, houve um aumento expressivo no índice de expectativas de inflação do consumidor (Painel B) calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV IBRE). Enquanto em janeiro de 2021, o índice era de 5.2%. Em novembro, alcançou 10%. 

Figura 1. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo e Indicador de Expectativa de Inflação durante o Governo Bolsonaro, janeiro de 2019 até janeiro de 2022

Painel A. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)

Crédito: FGV IBRE

Painel B. Indicador de Expectativa de Inflação

Crédito: FGV IBRE

Vários estudos mostram que a elevação da inflação produz um impacto importante na aprovação e votos para presidentes incumbentes. No caso específico do presidente Bolsonaro, a Figura 2 apresenta o IPCA (Painel A), o Índice de Expectativa de Inflação (Painel B) e o Agregador de Aprovação do JOTA. As análises estatísticas revelam achados importantes dado que estamos analisando um período relativamente curto. Não observamos que aumentos no IPCA se traduzem em quedas na aprovação do Bolsonaro. Entretanto, o efeito de longo prazo de aumentos nas expectativas de inflação se traduz em quedas sustentadas da aprovação do mandatário.

Estes resultados são interessantes por vários motivos. Primeiro, porque reforçam que, mesmo que houvesse reduções marginais nas taxas de aumento do IPCA em determinados meses, estas alterações não conseguiram mudar a percepção dos consumidores sobre a trajetória da economia. Segundo, os estudos de Cavallo reforçam que aumentos no IPCA não prejudicam igualmente todos os brasileiros em diferentes faixas de renda. Para os eleitores com menor renda, as quedas mais importantes são as dos preços dos alimentos, mas estes, ao contrário, têm apresentado aumento expressivo.

Se juntarmos a pressão inflacionária da alimentação sobre estas famílias com o aumento do desemprego e a persistência de uma falta de política coordenada para controlar a pandemia no país, dificilmente há como o eleitorado de menor renda ser favorável a Bolsonaro. Ressaltamos que as avaliações dos presidentes não são influenciadas somente pelo desempenho da economia e de forma racional. Embora existam outras influências, as mesmas parecem não ocupar um espaço tão significativo quanto o desempenho econômico.

Figura 2. IPCA, Índice de Expectativa de Inflação e Agregador de Aprovação do Jota durante o Governo Bolsonaro, janeiro de 2019 até janeiro de 2022

Painel A. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e Agregador de Aprovação do JOTA

Crédito: FGV IBRE e JOTA

Painel B. Indicador de Expectativa de Inflação e Agregador de Aprovação do JOTA

Crédito: FGV IBRE e JOTA

De fato, as pesquisas de opinião pública confirmam essas tendências. No caso dos Estados Unidos, os dados mostram que republicanos, democratas e independentes atualmente se manifestam preocupados com a inflação. De acordo com uma pesquisa realizada pelo “New York Times” em parceria com “Momentive”, 95% dos republicanos, 88% dos independentes e 82% dos democratas disseram estar preocupados com a inflação em uma pesquisa de dezembro de 2021[4].

No caso do Brasil, os resultados das pesquisas de opinião pública não incluem a mesma pergunta. Porém, os dados disponíveis reforçam que há diferenças importantes entre as expectativas dos brasileiros que se identificam com qualquer outro partido ou nenhum em comparação com o Partido Liberal (PL), o partido ao qual Jair Bolsonaro se afiliou novamente em fim de 2021. Com base em uma pesquisa realizada em dezembro de 2021 pelo Instituto Datafolha, observamos que somente 27% dos brasileiros que preferem o Partido Liberal como seu partido de preferência acreditavam que a inflação iria a aumentar. Por outro lado, mais da metade dos afiliados de partidos tais como MDB (51%) e PSDB (59%) esperavam a inflação aumentar daqui para frente. Curiosamente, a parcela que prefere o PT tem uma expectativa um pouco mais otimista sobre a inflação (46%).

Para a administração de Bolsonaro, as escolhas políticas para sair desta situação na véspera da eleição no atual contexto são complexas e incertas. Os aumentos na taxa Selic em 2021 não têm se traduzido em diminuir as pressões inflacionárias. E, como já estamos em uma situação de elevado desemprego, novos aumentos da taxa de juros podem contribuir ainda mais para uma queda na criação de novos empregos. Ou seja, os últimos meses do governo prometem ser meses de inflação persistente e, como consequência, incerteza elevada, o que pode aumentar ainda mais as pressões inflacionárias na economia brasileira.

[1] Cavallo, Alberto. “Inflation with COVID Consumption Baskets.” NBER Working Paper Series, No. 27352, June 2020. (IMF Economic Review – Conditionally Accepted. Harvard Business School Working Paper, No. 20-124, May 2020)

[2] https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2022-02/em-entrevista-presidente-bolsonaro-fala-sobre-desempenho-do-pib

[3] Barberia, Lorena G, Luiz GR Cantarelli, Maria Leticia Claro de Faria Oliveira, Natália de Paula Moreira, and Isabel Seelaender Costa Rosa. “The effect of state-level social distancing policy stringency on mobility in the states of Brazil.” Revista de Administração Pública 55 (2021): 27-49.

[4] Coy, Peter. “People Hate Inflation. But We Need to Keep Higher Prices in Perspective.” New York Times. 11 de fevereiro de 2022. Disponível em: https://www.nytimes.com/2022/02/11/opinion/inflation-fed-recession.html.