Garcia Pereira Advogados Associados

A Hannover Messe encerrou sua edição de 2026 no final da semana passada com o Brasil em um lugar que não ocupava havia 46 anos: o de país parceiro oficial da maior feira de tecnologia industrial do mundo. Nos cinco dias de evento, o país foi a segunda nação em número de visitantes, atrás apenas da China e à frente de Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul. A missão foi liderada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), que organizou a participação de 140 empresas brasileiras.

O Brasil também protagonizou o investimento mais expressivo da edição: cerca de R$ 12 bilhões para um complexo de hidrogênio verde e derivados no Rio Grande do Norte. O projeto Morro Pintado será instalado em Areia Branca, na região de Mossoró, a 280 km de Natal, responsável por 95% a 98% da produção nacional de sal marinho. 

A planta terá 1.400 MW de capacidade instalada em energia eólica e solar e deverá produzir cerca de 80 mil toneladas anuais de hidrogênio de baixo carbono na fase plena, com derivados como amônia, metanol e ureia verde, totalizando até 438 mil toneladas por ano. Para viabilizar a exportação, o projeto prevê a construção de um terminal portuário próprio em Areia Branca. Entre os parceiros industriais estão a ThyssenKrupp Uhde, a Siemens, a Andritz e a Deutsche Bahn.

O investimento vem em um momento em que a dependência brasileira da importação de fertilizante está em pauta, com a guerra no Irã ameaçando esse fornecimento. O Brasil importa hoje mais de 85% dos fertilizantes que consome, sendo 36% da ureia proveniente do Oriente Médio. O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF 2050) estabelece a meta de reduzir essa dependência para 50% até 2050. 

Com produção prevista de cerca de 428 mil toneladas de ureia verde, o projeto Morro Pintado poderia cobrir aproximadamente 5% da demanda nacional, estimada em 8 milhões de toneladas anuais. O projeto também se insere em um cenário competitivo global: segundo a consultoria Rystad Energy, mais de 1.000 projetos de hidrogênio verde já foram anunciados no mundo, representando US$ 350 bilhões em investimentos, com o Brasil entre os dez primeiros no ranking. 

Grandes e pequenas

“Mostramos na Hannover Messe soluções concretas para a indústria global e reforçamos parcerias que vão além da feira. Os resultados desta semana demonstram a capacidade das empresas brasileiras de responder às necessidades da indústria europeia e de se posicionar como parceiras estratégicas em áreas como energia, inovação e transformação industrial”, disse Laudemir Müller, presidente da ApexBrasil. 

A atuação brasileira nessas diversas áreas foi reforçada com empresas de diversos perfis. A Embraer, por exemplo, ocupou uma área de  2.000 m² nos pavilhões dedicados à automação, robótica, indústria digital e sustentabilidade. O destaque foi a subsidiária Eve Air Mobility, que apresentou seu projeto de aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical (eVTOL) voltada à mobilidade aérea urbana. A empresa organizou ainda uma Maratona de Startups com foco em inteligência artificial, robótica e automação aplicadas ao setor aeroespacial.

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Já a WEG, um dos maiores fabricantes globais de motores elétricos, apresentou soluções de eletrificação e eficiência energética. A Novus exibiu aplicações de IoT industrial para monitoramento e controle de processos em tempo real. A Be8 mostrou soluções de biocombustíveis para descarbonização de setores de difícil eletrificação, como transporte pesado. 

Empresas de menor porte também tiveram sua vez. A Arena de Inovação sediou nove sessões de pitches em que 57 startups apresentaram soluções ao público internacional. Três delas participaram do programa D4iD (Deep Techs for Industry Decarbonization), desenvolvido pela AHK São Paulo em parceria com o Cubo Itaú e executado pela Emerge Brasil. O programa é voltado a conectar deep techs brasileiras com demandas de descarbonização industrial europeia: HVB Energy, DIRAC e ZeoFertil.

Além disso, o programa Brasil IT+, da ApexBrasil com a Softex, levou a Hannover instituições como Instituto ELDORADO, CESAR, Vertex e Instituto Federal do Piauí (IFPI) — este em sua estreia em iniciativas de internacionalização. O CESAR mantém operação europeia estruturada, com contratos na Suíça e na Itália, e usou a feira para aprofundar parcerias com centros de referência do continente. A Infinite Foundry, especializada em gêmeos digitais e com contratos na Suíça, discutiu em Hannover novos modelos de negócio com parceiros europeus.

Mercosul-UE e relações bilaterais

A feira também serviu para fortalecer agendas mais amplas, às vésperas do início da aplicação provisória do Acordo MercosulUnião Europeia, prevista para 1º de maio. Será o maior acordo de livre comércio entre blocos já firmado, que cobre uma população de 718 milhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 22,4 trilhões. 

Do lado europeu, cerca de 10 mil produtos entram em vigor no primeiro dia, com metade deles passando imediatamente a tarifa zero. Para o setor industrial brasileiro, aproximadamente 80% das linhas tarifárias europeias são liberalizadas na entrada em vigor. Do lado brasileiro, o cronograma é deliberadamente mais lento: cerca de metade do que o Brasil importa da UE terá imposto zerado em 10 anos ou mais, para proteger setores industriais em transição.

A ApexBrasil estima incremento de até US$ 1 bilhão na balança comercial brasileira no primeiro ano de vigência. O Ipea projeta alta de 0,46% no PIB entre 2024 e 2040, mais de US$ 9,3 bilhões acumulados. O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou, em entrevista na mesma semana, que o acordo pode elevar as exportações brasileiras em até 13% quando totalmente implementado, com cerca de 5 mil produtos com tarifa zero já a partir de 1º de maio.

As relações bilaterais com a Alemanha também foram destaque, com a inauguração do pavilhão com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler alemão Friedrich Merz. Além disso, o 42º Encontro Econômico Brasil–Alemanha reuniu centenas de participantes. Oito instrumentos de cooperação foram assinados entre instituições dos dois países, cobrindo inteligência artificial, hidrogênio de baixo carbono, apoio a pequenas e médias empresas e desenvolvimento industrial sustentável.

Em outra frente, a ApexBrasil e o Ministério Federal de Economia e Energia da Alemanha assinaram um Memorando de Entendimento para cooperação em startups, negócios baseados em conhecimento e talentos. Dessa forma, foram abertos canais formais para fluxo de investimentos e tecnologia entre os dois países. Esse pode ser apenas o início de mais relacionamentos: relatório da ApexBrasil publicado antes da feira identificou mais de 390 oportunidades para empresas brasileiras em setores de maior valor agregado na relação com a Alemanha.