A mudança recente no comando de nove estados, do Distrito Federal e de dez capitais do país deve favorecer, em termos eleitorais, ainda mais a centro-direita na formação de palanques regionais para a disputa presidencial. Em sentido oposto, as trocas dificultaram as negociações para a centro-esquerda.
Em linhas gerais, se analisadas sob a ótica das três principais pré-candidaturas a presidente colocadas até agora, Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD), as mudanças indicam uma prevalência de apoios para o filho de Jair Bolsonaro, mas com boas chances de formação de palanques para o ex-governador de Goiás.
Os novos governadores e prefeitos assumiram os cargos nos últimos dias após os titulares terem se desincompatibilizado para, como determina a lei, concorrerem a novos mandatos. Quase todos os que saíram dos governos devem disputar uma vaga no Senado Federal. Os prefeitos que renunciaram ao cargo vão concorrer a governador.
Dos novos governadores, nove deverão tentar a reeleição: Mateus Simões (PSD-MG), Ricardo Feraço (MDB-ES), Octaviano Pivetta (Republicanos-MT), Hana Ghassan (MDB-PA), Daniel Vilela (MDB-GO), Lucas Ribeiro (PP-PA), Celina Leão (PP-DF), Edilson Damião (União Brasil-RO) e Mailza Assis (PP-AC).
Três casos emblemáticos em termos de mudança de cenário são o Espírito Santo, a Paraíba e Mato Grosso. No primeiro deles, a troca de Renato Casagrande, do PSB, por Ricardo Ferraço tira um aliado de Lula do poder e coloca no comando do estado um político que vem buscando aproximação com o PL de Flávio Bolsonaro, além de defender uma postura “independente” na eleição presidencial. Ferraço sempre manteve uma boa relação com Ronaldo Caiado (PSD), com quem concorda em críticas ao atual presidente.
Na Paraíba, João Azevedo, do PSB, foi substituído por Lucas Ribeiro, do PP, outro partido que não estará na órbita de Lula e é cortejado por Flávio Bolsonaro e por Caiado, os representantes da centro-direita na eleição presidencial. Apesar de o novo governador ter dito que pretende manter os compromissos firmados por seu antecessor no sentido de caminhar com o presidente no estado, seus aliados dizem que o cenário eleitoral pode empurrá-lo para Flávio ou Caiado.
Isso porque Cícero Lucena (MDB), ex-prefeito de João Pessoa que se desincompatibilizou para concorrer ao governo, também negocia o apoio do PT e tem exigido um compromisso formal de Lula. Se essa aliança se confirmar, Ribeiro poderá fazer uma inflexão rumo à direita para se contrapor a seu principal adversário.
Em Mato Grosso, a substituição de Mauro Mendes (União Brasil) por Octaviano Pivetta animou o entorno de Caiado. O novo governador é empresário do agronegócio e defende uma agenda muita parecida com a do presidenciável. Outro ponto importante é que Pivetta vem disputando com o senador Wellington Fagundes (PL) o apoio de Flávio Bolsonaro. Ou seja, uma das ideias colocadas é de que tenha um palanque duplo para presidenciáveis.
Os aliados de Caiado também enxergam uma janela de oportunidades em Minas Gerais, onde Romeu Zema (Novo) foi substituído por Mateus Simões, do mesmo PSD de Caiado. Por ora, o cenário no estado ainda está indefinido, mas, caso Zema não se viabiliza como candidato ao Planalto, há a possibilidade de o novo governador apoiar Caiado.
Caiado deixou o governo de Goiás na semana passada e foi substituído por Daniel Vilela (MDB), que era seu vice. O compromisso do atual mandatário é apoiar a candidatura a presidente de seu antecessor.
Nos demais estados onde houve mudanças, Lula continua contando com o apoio da nova governadora do Pará, Hana Ghassan (MDB), que substituiu Helder Barbalho (MDB). Em outros três e no Distrito Federal, os novos governantes devem se alinhar a Flávio Bolsonaro, especialmente nos da região Norte.
No Rio de Janeiro, com a renúncia de Cláudio Castro (PL), o Supremo Tribunal Federal (STF) deverá decidir ainda nesta semana como será feita a substituição do ex-governador, pois o estado não possui um vice.
Capitais
Dos nove prefeitos que assumiram capitais do país nos últimos dias por conta das eleições deste ano, apenas dois devem manter alinhamento automático a Lula na disputa presidencial: Victor Marques (PCdoB), no Recife (PE), e Léo Bezerra, em João Pessoa (PB). Seus antecessores, João Campos (PSB) e Cícero Lucena, respectivamente, concorrerão ao governo e darão palanque para o atual presidente.
No Rio de Janeiro (RJ), com Eduardo Cavalieri, e em São Luís, com Esmênia Miranda, Lula mantém boas chances de obter apoio, mas a entrada de Caiado no jogo pode dificultar as negociações, pois os novos prefeitos são do PSD, mesmo partido do ex-governador de Goiás. A mesma condição vale para seus antecessores, os pré-candidatos a governador Eduardo Paes e Eduardo Braide, respectivamente.
Em todas as demais capitais onde ocorreram trocas de comando, tanto quem saiu quanto quem entrou estará no campo da oposição ao presidente, com predomínio de apoios para Flávio Bolsonaro (PL). Em Vitória (ES), por exemplo, Lorenzo Pazolini (Republicanos), que acabou de deixar o cargo, mantém relação próxima com a família Bolsonaro, que ainda que seu partido siga negociando com Caiado.
Veja abaixo as trocas de comando nos estados e capitais
Estados
Minas Gerais
Quem saiu: Romeu Zema (Novo)
Quem assumiu: Mateus Simões (PSD)
Quem o novo governador deve apoiar: Zema, Caiado ou Flávio Bolsonaro
Rio de Janeiro
Quem saiu: Cláudio Castro (PL)
Quem assumiu: Ricardo Couto, presidente do TJRJ
Espírito Santo
Quem saiu: Renato Casagrande (PSB)
Quem assumiu: Ricardo Ferraço (MDB)
Quem o novo governador deve apoiar: defende uma postura de “independência”, mas mantém boa relação com Caiado
Mato Grosso
Quem saiu: Mauro Mendes (União Brasil)
Quem assumiu: Octaviano Pivetta (Republicanos)
Quem o novo governador deve apoiar: Flávio Bolsonaro, com a possibilidade abrir palanque a Caiado
Goiás
Quem saiu: Ronaldo Caiado (PSD)
Quem assumiu: Daniel Vilela (MDB)
Quem o novo governador deve apoiar: Caiado
Pará
Quem saiu: Helder Barbalho (MDB)
Quem assumiu: Hana Ghassan (MDB)
Quem o novo governador deve apoiar: Lula
Amazonas **
Quem saiu: Wilson Lima (União)
Quem assumiu: Como o vice de Wilson Lima também renunciou, assumiu o presidente da Assembleia Legislativa, Roberto Cidade (União Brasil)
Quem o novo governador deve apoiar: Flávio Bolsonaro
Acre
Quem saiu: Gladson Cameli (PP)
Quem assumiu: Mailza Assis (PP)
Quem o novo governador deve apoiar: Flávio Bolsonaro
Roraima
Quem saiu: Antonio Denarium (PP)
Quem assumiu: Edilson Damião (União Brasil)
Quem o novo governador deve apoiar: Flávio Bolsonaro
Paraíba
Quem saiu: João Azevedo (PSB)
Quem assumiu: Lucas Ribeiro (PP)
Quem o novo governador deve apoiar: Lula, mas com diálogo aberto com Flávio e Caiado
Distrito Federal
Quem saiu: Ibaneis Rocha (MDB)
Quem assumiu: Celina Leão (PP)
Quem o novo governador deve apoiar: Flávio Bolsonaro, mas com diálogo aberto com Caiado
Capitais
Rio de Janeiro (RJ)
Quem saiu: Eduardo Paes (PSD)
Quem assumiu: Eduardo Cavalieri (PSD)
Quem o novo prefeito deve apoiar: Lula, mas com diálogo aberto com a oposição ao presidente e com Caiado, pré-candidato de seu partido
São Luís (MA)
Quem saiu: Eduardo Braide (PSD)
Quem assumiu: Esmênia Miranda (PSD)
Quem o novo prefeito deve apoiar: Lula, mas com diálogo aberto com Caiado, pré-candidato a presidente do mesmo partido
Vitória (ES)
Quem saiu: Lorenzo Pazolini (Republicanos)
Quem assumiu: Cris Samorini (PP)
Quem a nova prefeita deve apoiar: Flávio Bolsonaro
Maceió (AL)
Quem saiu: João Henrique Caldas (PL)
Quem assumiu: Rodrigo Cunha (Podemos)
Quem o novo prefeito deve apoiar: Flávio Bolsonaro
Recife (PE)
Quem saiu: João Campos (PSB)
Quem assumiu: Victor Marques (PCdoB)
Quem o novo prefeito deve apoiar: Lula
João Pessoa (PB)
Quem saiu: Cícero Lucena (MDB)
Quem assumiu: Léo Bezerra (Cidadania)
Quem o novo prefeito deve apoiar: Lula
Manaus (AM)
Quem saiu: David Almeida (Avante)
Quem assumiu: Renato Júnior (Avante)
Quem o novo prefeito deve apoiar: Flávio Bolsonaro
Rio Branco (AC)
Quem saiu: Tião Bocalom (PSDB)
Quem assumiu: Alysson Bestene (PP)
Quem o novo prefeito deve apoiar: Flávio Bolsonaro
Boa Vista (RR)
Quem saiu: Arthur Henrique (PL)
Quem assumiu: Marcelo Zeitoune (PL)
Quem o novo prefeito deve apoiar: Flávio Bolsonaro
Macapá *
Quem saiu: Doutor Furlan (PSD)
Quem assumiu: Pedro DaLua (União Brasil)
Quem o novo prefeito deve apoiar: Flávio Bolsonaro
* o novo prefeito assumiu interinamente porque o prefeito Furlan e seu vice estão afastados pela Justiça e também renunciaram