O Instituto Nacional de Câncer (INCA) vai conduzir estudo inédito para implementação de um programa de rastreamento de câncer de pulmão no Sistema Único de Saúde (SUS). Os resultados serão usados para identificar a possibilidade de se construir uma diretriz nacional para detecção da doença, principal causa de morte por câncer no Brasil.
Estimativas do INCA indicam que o país terá cerca de 35.380 novos casos de câncer do pulmão por ano no período 2026–2028, sendo aproximadamente 18.730 casos em homens e 16.650 em mulheres.
Os números de morte também são expressivos. A alta taxa de mortalidade está associada ao diagnóstico tardio. O diretor geral do INCA, Roberto Gil, observa que 85% dos casos são identificados no estágio avançado. “No INCA, 50% dos pacientes não iniciam o tratamento, porque já perderam a janela de oportunidade”, observou o diretor, durante cerimônia de lançamento da pesquisa, no Rio.
Financiado pela AstraZeneca e feito em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio, o estudo tem duração prevista de dois anos. Neste período, deverão ser acompanhadas 397 pessoas. Os voluntários serão recrutados no Programa de Cessação de Tabagismo da Secretaria Municipal de Saúde do Rio.
A escolha não é à toa. Cerca de 85% dos casos de câncer do pulmão estão associados ao consumo de produtos ligados ao tabaco. Para participar do estudo, voluntários precisam se encaixar num perfil determinado: ter entre 50 e 80 anos, fumantes ou ex-fumantes que tenham parado de fumar nos últimos 15 anos, sem diagnóstico de câncer ou sintomas relacionados à doença, como tosse com sangramento ou dificuldade em respirar.
Ao se fazer a escolha dos voluntários, a pesquisa deve também analisar as razões dos pacientes que não queiram fazer o rastreamento, algo que poderá também trazer respostas importantes sobre o comportamento dos voluntários.
O rastreamento será feito com tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD). O teste terá periodicidade variável. Para pessoas com resultado negativo, por exemplo, o exame será anual. De acordo com o resultado, o encaminhamento do paciente será definido. Em caso de diagnóstico positivo, pacientes serão tratados em uma das unidades do INCA.
Representante da Aliança do Combate ao Câncer de Pulmão no Brasil, Gustavo Prado, avalia que a iniciativa será essencial para saber quais ações são factíveis no cenário da vida real. “Certamente o trabalho trará dados importantes para os tomadores de decisão”, disse.
Gil destaca que o estudo terá um olhar especial para o rastreamento no Rio, Estado que tem alta prevalência de tuberculose, doença que provoca reação no pulmão que pode se confundir, na análise do exame de imagem, com formações tumorais. Ele observa que o fato de a pesquisa ser realizada na cidade, justamente por esta particularidade, ajuda a ter uma noção mais exata do impacto orçamentário que uma estratégia como esta poderia alcançar. “A necessidade aqui identificada talvez seja o parâmetro para o teto necessário, em razão das características regionais.”
O diretor do INCA também observou a importância da parceria público privada, que será feita no caso deste projeto piloto. “O importante é a transparência e desenvolvermos projetos transformadores., disse. Diretor médico da AstraZeneca, Danilo Lopes, completou:”É uma maneira nova e interessante de se fazer saúde no Brasil, com parcerias.”
Experiências internacionais mostram que a detecção precoce pode reduzir de 90% para 30% a proporção de diagnósticos em estágios avançados. Uma queda nesta proporção pode auxiliar de forma expressiva o prognóstico do tratamento. Como em qualquer doença, quanto mais cedo ela é identificada, melhores as chances de um tratamento bem sucedido. A estimativa é a de que a detecção precoce tem potencial para reduzir a mortalidade do câncer de pulmão em 20%.
Lopes, afirmou ainda que um levantamento está em curso, em parceria com a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e Aliança De Combate ao Câncer de Pulmão, para identificar a infraestrutura do país para diagnóstico e tratamento. “O objetivo é identificar a capacidade de resposta”, disse. Os tomógrafos usados na detecção existem no país. A partir dos estudos realizados, haverá também possibilidade de se identificar o que é necessário para implementar um plano de maior abrangência. “Avaliar qual será a necessidade de biópsia, de profissionais”, disse o diretor do Inca.