Garcia Pereira Advogados Associados

Quando o pianista Misha Tsiganov nasceu em Leningrado, em 1966, a então União Soviética era ainda era severa e fechada ditadura comunista comandada por Leonid Brejnev, que sucedera o chefão Nikita Kruschev, mantendo contudo a mesma linha dura cultural do antecessor.

Em 1963, Kruschev tinha baixado um documento sobre “a música na sociedade soviética”, na qual assentara: “Não se pode considerar a atual paixão pelo jazz como um fenômeno normal. Não somos contra essa música como um todo (…) Eu até gosto de algumas canções tocadas pela orquestra de jazz (sic) conduzida por Leonid Utesov. Mas há também um tipo dessa música que provoca até vômitos e cólicas no estômago”.

 

Mais de duas décadas depois, em 1990, quando o jazz dito moderno já era tolerado, ouvido e tocado nas principais cidades da URSS, o também concertista Misha Tsiganov venceu a “All-Russia Jazz Competition”. Logo em seguida, com o fim da “União Soviética” e o rebatismo de Leningrado como São Petersburgoele foi até indicado para completar seus estudos no Berklee College of Music de Boston pelo grande vibrafonista Gary Burton. E acabou depois fixando-se em Nova York.

Dois outros músicos russos da mesma geração que também migraram para a capital mundial do jazz, onde foram muito beacolhidos e apreciadossão o contrabaixista Boris Kozlov e o trompetista Alex Sipiagin. O primeiro foi, durante muitos anos, integrante e até diretor musical da Mingus Big Band, que se apresentava no clube Jazz Standard, sempre às segundas-feiras, revivendo a obra do canonizado baixista-compositor. O pistonista, por sua vez, além de integrar a mesma orquestra, gravou como líder 10 CDs para o selo Criss Cross entre 2001 e 2017. 

Pois Tsiganov, Kozlov e Spiagin estão juntos em quinteto com o saxofonista Seamus Blake e o baterista Donald Edwards no recém-lançado álbum Misha’s Wishes (Criss Cross), gravado em setembro do ano passado. Trata-se de uma seleção de 10 peças, das quais sete são originais do pianista, incluindo a faixa-título (5m35). Os outros três títulos são: Strike up the band (8m30), de George Gershwin; Comrade Conrad (7m20), de Bill Evans; There was a birch tree/So what (6m10), baseado numa canção folclórica russa mesclada com inesquecível tema de Miles Davis. 

As composições de Misha Tsiganov são variadas em matéria de mood. Aquela que intitula o disco, Hope and despair (7m15), e Are you with me (7m50) são de índole mais contemplativa, com realce para solos também de Sipiagin (trompete ou flugelhorn) e do notável saxofonista tenor Seamus Blake. Fire horse (7m10), o primeiro número da setlist, é levado pelo quinteto, inicialmente, em tempo médio, e esquentado a partir do segundo minuto com solos vibrantes do pistonista, do coltraneano saxofonista e do primoroso pianista-líder. Lost in her eyes (2m20) é a única interpretação solitária de Tsiganov. 

Ouça Strike up the band:

Ouça Lost in her eyes:

Ouça Fire horse:

Samples de todas as faixas em: https://music.apple.com/my/album/mishas-wishes/1600697233.