Garcia Pereira Advogados Associados

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As eleições de 2026 recolocaram na agenda nacional uma discussão que o Brasil adia há décadas: a necessidade urgente de reformar nosso sistema de representação política.

As votações extraordinárias de determinados candidatos revelam uma transformação profunda na maneira como o poder político é conquistado. Nikolas Ferreira recebeu mais de 3,1 milhões de votos em Minas Gerais. Lucas Pavanato ultrapassou os 3 milhões em São Paulo. No mesmo estado, Erika Hilton conquistou quase 1,6 milhão de votos para deputada federal, enquanto Eduarda Campopiano recebeu quase 2 milhões para a Assembleia Legislativa.

São números impressionantes, de diferentes campos ideológicos, que demonstram a força da mobilização eleitoral na era digital. Não se trata de questionar a legitimidade desses votos, mas de compreender seus efeitos sobre um sistema eleitoral concebido muito antes da revolução das redes sociais.

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As redes sociais transformaram a maneira de conquistar votos, mas nossas instituições não acompanharam essa mudança.

A política tornou-se, em grande medida, uma competição pela atenção. Os algoritmos, orientados para maximizar o engajamento, frequentemente favorecem o confronto, a indignação, a simplificação de problemas complexos e a polarização. A capacidade de viralizar conteúdos passou a representar um ativo eleitoral extraordinário, muitas vezes mais relevante do que a trajetória pública, a experiência administrativa, a organização partidária ou a presença nas comunidades.

As plataformas digitais ampliaram a participação política e deram voz a novos atores. Mas também criaram incentivos que podem distorcer a qualidade da representação democrática.

Quando a visibilidade passa a valer mais do que a capacidade de representar, a democracia corre o risco de substituir a política das ideias pela política da atenção.

O sistema proporcional de lista aberta, adotado no Brasil, potencializa alguns desses efeitos. Votações individuais extraordinárias contribuem para ampliar as bancadas partidárias, elegendo também candidatos pouco conhecidos pelos eleitores. Ao mesmo tempo, a eleição em grandes circunscrições estaduais enfraquece a relação direta entre representantes e comunidades.

Temos parlamentares capazes de alcançar milhões de seguidores, mas nem sempre cidadãos capazes de identificar quem efetivamente representa os interesses de sua região.

É nesse contexto que o voto distrital misto precisa deixar de ser uma promessa recorrente e tornar-se uma prioridade da reforma política brasileira.

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No modelo distrital misto compensatório, inspirado na experiência alemã, o eleitor dispõe de dois votos: um para escolher seu representante territorial e outro para definir a representação proporcional dos partidos. Assim, combinam-se proximidade com o eleitor, responsabilidade política e preservação do pluralismo democrático.

O deputado passa a ter uma comunidade claramente identificável perante a qual deve prestar contas, sem abandonar suas responsabilidades nacionais. Os partidos, por sua vez, preservam seu papel na organização da representação proporcional.

Evidentemente, o voto distrital misto não elimina a influência das redes sociais nem resolve sozinho todos os problemas da democracia. Sua adoção precisa ser acompanhada de regras transparentes para o financiamento e o impulsionamento digital das campanhas, maior responsabilidade das plataformas e fortalecimento dos partidos políticos.

Também exige cuidados na delimitação dos distritos e na garantia de representação das mulheres, das minorias e das diferentes correntes políticas.

Mas não podemos continuar adiando essa discussão.

A democracia representativa não pode ficar subordinada à lógica dos algoritmos. A política exige diálogo, construção de consensos, compromisso com o interesse público e responsabilidade perante os cidadãos.

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Seguidores não são necessariamente representados. Engajamento não é sinônimo de participação democrática. Viralização não substitui responsabilidade pública.

As eleições de 2026 oferecem uma oportunidade para avançarmos em uma reforma política estrutural, que não seja concebida contra candidatos ou partidos, mas a favor da qualidade da representação e do fortalecimento das instituições.

Não podemos continuar elegendo representantes pelas regras do século passado enquanto a disputa política é cada vez mais organizada pelos algoritmos do presente.

O Brasil precisa adotar o voto distrital misto e modernizar suas instituições para os desafios do século XXI.

Porque a democracia deve ser governada pela vontade dos cidadãos, não pela lógica das plataformas digitais.