Garcia Pereira Advogados Associados

Na mitologia grega, o herói Hércules foi condenado a cumprir doze trabalhos considerados impossíveis. Em seu pior desafio, enfrentou a Hidra de Lerna, uma serpente de múltiplas cabeças com uma particularidade: a cada cabeça cortada, outras duas nasciam no lugar. Por mais força que Hércules aplicasse, cada golpe fazia nascer novas cabeças, prova de que repetir a mesma estratégia não resolveria o problema. A vitória só veio quando ele mudou de abordagem e cauterizou os cortes, impedindo que elas se multiplicassem e ele precisasse fazer a mesma coisa eternamente.

Muito antes de ser fundador da Enter, sou advogado. Dediquei os últimos três anos da minha vida para entender um problema jurídico do Brasil que se assemelha às cabeças da Hidra: o nosso contencioso de massa. Com muito trabalho repetitivo e uma pilha enorme de folhas para ler em pouco tempo, antes da difusão de inteligência artificial (IA) não sobrava espaço para os advogados pensarem na melhor estratégia para cada caso. Trabalhavam-se horas infinitas só para cumprir prazos com peças muitas vezes genéricas, sem tempo de pensar em cada caso individualmente. A revista Exame chegou ao ponto de, em 2011, chamar os escritórios de advocacia de massa de “salsicharia do Direito”. Diante desse cenário,  fundei a Enter com o objetivo de reverter esse movimento de degradação da minha classe: a advocacia. 

Uma pesquisa independente feita por uma das maiores consultorias estratégicas do mundo dá a dimensão desse cenário. O estudo aborda o impacto da inteligência artificial no contencioso de massa, reunindo dados públicos do Judiciário brasileiro, entrevistas com centenas de advogados e benchmarks globais. A análise trouxe quatro conclusões principais.

Primeiro, o volume de processos no país não para de crescer exponencialmente: saiu de um crescimento constante de 2% a 3% ao ano desde 2009 e quadruplicou para 8% ao ano em 2022, justamente no ano de lançamento do ChatGPT. Para grandes empresas, esse impacto foi ainda maior, com um aumento de 16% ao ano só nos processos cíveis. Os autores dos processos começaram a utilizar IA e, na metáfora da Hidra, a cada processo encerrado hoje, surgem dois novos para responder.

novos processos no brasil
Gráfico: Aumento de processos no Brasil em milhões / Fonte: Bain & Company

Segundo, quem sente o peso desse volume é uma fatia muito pequena da advocacia, que opera com recursos escassos e baixo grau de saúde física e mental para seus colaboradores: profissionais que atuam no contencioso de massa representam aproximadamente 2% do 1,5 milhão de advogados registrados no país, mas atuam em mais de 70% do volume total de processos judiciais das maiores empresas do país. Um grupo pequeno que, antes do surgimento da IA, lidava com um volume desproporcional de processos manuais e prazos apertados, num trabalho repetitivo e mecânico, sem espaço para interpretar um processo, analisar dados ou redigir defesas customizadas.

A sobrecarga exigiu um modelo de negócio novo: o estudo constatou que, em escritórios de contencioso de massa, 45% dos colaboradores não foram sequer aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e não possuem registro na entidade, muitas vezes executando atividades de cunho advocatício fora da regulação da classe. Nas palavras da Exame, descrevendo pejorativamente um escritório anterior ao surgimento de IA: “tem jeitão de call center, linha de produção, custos baixíssimos – é o escritório de advocacia mais inusitado do país”.

Terceiro, a IA não diminui o número de advogados do contencioso de massa. A reação inicial à adoção da inteligência artificial foi imaginar que, se a tecnologia traz ganhos de produtividade, haveria menos espaço para as pessoas. A realidade provou o contrário: o volume do contencioso de massa cresce tanto que, mesmo com a redução do trabalho mecanizado, os escritórios dessa vertical, em agregado, aumentaram sua quantidade de pessoas.

Foi isso que o estudo independente identificou: entre 2018 e 2025, o número de advogados, no universo dos escritórios de contencioso de volume aumentou 3% ao ano. O mesmo movimento é visto em países mais maduros na adoção de IA, como Estados Unidos, Reino Unido e França. Nestes dois últimos, inclusive, a quantidade de advogados cresce a um ritmo de 3% e 2% ao ano desde 2019, respectivamente.

Por fim, a IA valoriza o advogado. Com mais visibilidade de dados e podendo delegar tarefas clericais, sobra tempo para estratégia, julgamento e tomada de decisão. Como consequência, o advogado passa a ser melhor remunerado pelo seu tempo. No universo de escritórios de massa, os profissionais que utilizam a IA da Enter, por exemplo, recebem mais: em média, 19% a mais em estagiários, 14% em advogados juniores e 43% no caso dos advogados plenos, em comparação com pares que não usam nossa tecnologia para potencializar sua atuação. O efeito imediato dessa maior remuneração é trazer saúde física e mental para os profissionais desse setor, que antes se viam desvalorizados.

No fim, as quatro conclusões apontam para o mesmo lugar: o volume de processos só vai crescer, a advocacia não vai encolher e o advogado que trabalha com IA vai ganhar mais.

Hércules só derrotou a Hidra quando abriu mão do trabalho braçal de apenas cortar uma cabeça atrás da outra e passou a agir com estratégia. Essa é a missão da Enter: construir uma tecnologia que abasteça os advogados das empresas e seus respectivos escritórios de advocacia de informação, usando inteligência artificial para transformar milhões de documentos, imagens e PDFs em contexto para uma atuação estratégica por parte do advogado.

Na ponta, isso favorece diretamente o consumidor. Uma análise mais cuidadosa dos fatos pode ajudar a reconhecer falhas, antecipar acordos e fundamentar defesas quando a cobrança é indevida. Peguemos o caso do setor aéreo, por exemplo. Segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), o Brasil tem cerca de 3% do tráfego aéreo do mundo, mas concentra 98,5% dos processos judiciais contra empresas aéreas. Em setembro de 2025, o presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) afirmou que a judicialização excessiva responde por 5% a 10% do preço da passagem aérea – são gastos com indenizações, acordos e equipes jurídicas, que acabam embutidos no preço final cobrado do consumidor.

Para tangibilizar, o time de engenharia da Enter treinou um modelo de inteligência artificial para ler códigos do METAR de meteorologia. Nossa IA traz contexto sobre, por exemplo, uma chuva de granizo que impossibilitou um voo de decolar de Congonhas, em São Paulo, para o Santos Dumont, no Rio de Janeiro, por motivos de segurança. Essa análise é impossível de ser feita por advogados, por exigir técnica aeronáutica ensinada apenas para pilotos de avião. Ou seja, a IA acrescentou uma interpretação de dados que antes não era feita. O advogado então toma a decisão final – com estratégia e julgamento humano – de incluir ou não essa evidência na peça de contestação, podendo aumentar as chances de a empresa aérea evitar uma derrota judicial indevida. Essa tecnologia foi tão efetiva que hoje é utilizada por 100% das grandes empresas de aviação do Brasil.

Imagem: Exemplo de código METAR.

Usar IA é parte do direito de defesa das empresas litigadas massivamente no Brasil. A Corte Especial do STJ reconheceu, no ano passado, o direito fundamental da parte autora de utilizar IA para acessar a justiça. O raciocínio é o mesmo para as demandadas se defenderem com qualidade na escala do contencioso brasileiro, que não tem precedente na história do mundo. A tecnologia deve operar a serviço e empoderando os advogados do jurídico interno e do escritório de advocacia que estiver habilitado nos autos. Eles pilotarão a IA.

Quando a inteligência artificial antecipa o trabalho repetitivo, o profissional volta a olhar para aquilo que realmente exige julgamento intelectual. O sistema de justiça vence com um contraditório substantivo e menos mecânico. O consumidor tem respostas mais rápidas e justas às suas demandas e serviços menos onerados pelos custos da litigância abusiva. E a Enter eleva o advogado do contencioso de massa a focar no trabalho de maior valor.